
Se você acompanha o nível de água em São Paulo, mais cedo ou mais tarde acaba só olhando um número: o da Cantareira. Faz sentido. Este sistema sozinho guarda mais da metade de toda a água represada da região metropolitana. Quando ele vai mal, o resto não compensa.
Mas o que exatamente é a Cantareira? Não é uma represa. São seis, ligadas entre si, espalhadas por uma área grande no norte do estado, e um conjunto de túneis que faz a água andar na direção contrária à que ela seguiria sozinha.
1. Jaguari e Jacareí — são duas represas coladas, ligadas por um canal, e por isso costumam aparecer juntas nos boletins. É o coração do sistema: sozinhas guardam mais da metade da água da Cantareira. Ficam na região de Joanópolis e Bragança Paulista.
2. Cachoeira — em Piracaia, recebe a água que vem do Jaguari/Jacareí por túnel e acrescenta o que capta na própria bacia.
3. Atibainha — em Nazaré Paulista. É aqui que chega, desde 2018, a água transposta do rio Jaguari da bacia do Paraíba do Sul, o reforço construído depois da crise.
4. Paiva Castro — em Mairiporã, a última grande represa da linha. Daqui a água segue para a estação elevatória de Santa Inês, porque a partir deste ponto ela precisa subir uns 120 metros para vencer a serra e chegar à cidade. É o único trecho em que a Cantareira gasta muita energia elétrica.
5. Águas Claras — pequena, funciona como reservatório de passagem depois do bombeamento.
Ligando as represas há dezenas de quilômetros de túneis escavados na rocha nos anos 1970. A água passa de um reservatório para o outro por gravidade, o que dá ao sistema uma característica curiosa: dá para operar as represas quase como vasos comunicantes, transferindo estoque conforme a chuva cai mais de um lado ou do outro.
Por isso o número que a Sabesp publica todo dia é o do sistema, e não o de cada represa. Ainda assim vale olhar represa por represa: quando o Jaguari/Jacareí cai muito, o sistema inteiro sente, porque é lá que está o volume. Você encontra o nível de cada uma delas aqui.
Depois de bombeada em Santa Inês, a água chega à ETA Guaraú, na zona norte da capital. É uma das maiores estações de tratamento do planeta, com capacidade da ordem de 33 mil litros por segundo. Trinta e três mil litros. Por segundo. Uma piscina olímpica a cada 75 segundos, mais ou menos.
De lá saem adutoras enormes que alimentam reservatórios espalhados pela cidade — e é desses reservatórios que sai a água da sua rua. A Cantareira atende cerca de 6,5 milhões de pessoas na capital e em municípios vizinhos, incluindo Franco da Rocha, Caieiras, Osasco e Carapicuíba.
Aqui aparece a parte que confunde todo mundo. A Cantareira tem um volume útil — a água que sai por gravidade, sem esforço — de cerca de 982 bilhões de litros. Abaixo disso há mais água, presa no fundo dos reservatórios, que só sai bombeada: são as reservas técnicas, apelidadas de volume morto durante a crise de 2014. São mais 287,5 bilhões de litros.
Como a conta pode ser feita de mais de uma maneira, o mesmo dia pode render percentuais bem diferentes. É por isso que este site mostra três índices para a Cantareira e só um para os outros sistemas. Se você já se perdeu nesses números, vale ler o texto que explica cada índice.
A Sabesp opera, mas não decide sozinha quanta água pode tirar. Como o sistema fica numa bacia que abastece também Campinas, Piracicaba, Jundiaí e região, a retirada é regulada por uma outorga concedida pela ANA e pelo DAEE, revisada de tempos em tempos, com regras que apertam a torneira conforme o nível cai. É um arranjo negociado — e sempre tenso, porque de um lado e do outro tem gente precisando da mesma água.
No dia a dia, o que dá para acompanhar é o resultado: o nível do sistema, atualizado diariamente, e a chuva que caiu na bacia, que é o que determina o resto.
Este site é independente e não tem nenhuma relação com a Sabesp.
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