
Toda campanha de economia de água começa mandando você fechar a torneira ao escovar os dentes. O conselho é bom, mas guarda um problema: ele dá a impressão de que o consumo de uma casa se decide na pia do banheiro. Não se decide. Se decide no chuveiro e na descarga.
O paulistano médio consome algo entre 150 e 190 litros por pessoa por dia. Parece muito porque é muito: cabem quase dois banheiras nisso. Vale a pena olhar para onde essa água vai antes de decidir onde economizar.
Numa casa comum, com chuveiro elétrico e vaso com caixa acoplada, a divisão fica mais ou menos assim:
Note o que isso significa: tirar dois minutos do banho de cada morador economiza mais do que todos os copinhos de escovar dente do mês somados.
1. Cronometrar o banho, uma vez. Não é para virar rotina. Ponha o cronômetro do celular um dia, só para saber quanto tempo você leva. Quase todo mundo se surpreende. Depois disso, cortar cinco minutos é uma decisão consciente, e não uma culpa vaga.
2. Consertar vazamento silencioso. É a economia mais rentável que existe, porque não muda hábito nenhum. Feche tudo em casa, olhe o hidrômetro, espere uma hora e olhe de novo. Se o número mudou, há vazamento. O suspeito número um é a válvula do vaso sanitário, que escoa devagar sem fazer barulho e pode jogar fora milhares de litros por mês.
3. Trocar a descarga antiga. Uma caixa acoplada com acionamento duplo paga a troca em pouco tempo numa casa com três ou quatro pessoas. Se o vaso for daqueles antigos, de válvula na parede, a diferença é ainda maior.
4. Máquina cheia, sempre. Vale para a de roupa e para a de louça. Meia carga gasta quase a mesma água. E sim, lavar louça na máquina cheia gasta menos do que lavar a mesma louça na mão com a torneira aberta — a diferença é grande.
5. Vassoura, não mangueira. Lavar calçada com mangueira por dez minutos gasta o equivalente a um banho longo. Se for lavar o carro em casa, balde.
6. Reaproveitar a água da máquina. A água do enxágue serve para lavar quintal e área de serviço. Não precisa de obra: uma mangueira do dreno para um tambor resolve. Só não guarde por dias, para não virar criadouro de mosquito.
Fechar a torneira ao escovar os dentes economiza uns poucos litros por dia. É bom, é barato, mas não é o que muda a conta. Descongelar carne fora da água corrente, idem. São hábitos que valem por serem gratuitos, não por serem decisivos.
Cisterna de água de chuva é excelente ideia em casa com quintal, mas exige investimento e manutenção, e o retorno depende de quanto você usa água não potável. Antes de partir para obra, arrume os vazamentos e troque a descarga: custa uma fração e economiza mais.
A tarifa é escalonada por faixas de consumo: quanto mais você usa, mais caro fica o metro cúbico. Isso significa que cortar consumo quando se gasta muito tem efeito desproporcional na conta — você sai da faixa mais cara. Uma família que reduz 20% do consumo costuma ver uma redução maior que 20% no valor.
Vale lembrar que a maior parte da conta de água não é água: é esgoto, cobrado como um percentual do volume consumido. Toda economia é contada duas vezes.
Vale, por um motivo prático: represa cheia hoje é reserva para o ano que vem. Durante a crise de 2014 o consumo por pessoa caiu de forma expressiva e voltou a subir assim que a situação normalizou. É um ciclo conhecido, e o pouco que se mantém dos hábitos da seca é o que dá fôlego na próxima.
Do lado de lá do cano, o desafio maior é outro: a água que se perde antes de chegar. E se quiser saber como anda o estoque agora, é só olhar o nível dos reservatórios.
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