
Existe uma represa invisível na Grande São Paulo. Ela não aparece em mapa nenhum, não tem barragem e nunca sai nos boletins, mas é grande: é toda a água que sai tratada das estações e nunca chega a ser cobrada de ninguém. Perto de um terço do total.
Esse número tem nome técnico — índice de perdas na distribuição — e é a métrica mais desconfortável do setor de saneamento no Brasil inteiro.
A conta é simples: pega-se tudo o que foi produzido nas estações de tratamento e subtrai-se tudo o que foi medido nos hidrômetros dos clientes. O que sobra é perda. Ela se divide em dois tipos bem diferentes.
Perda física é água que realmente escapa: cano furado, junta velha, tubulação de cimento amianto instalada nos anos 1960, reservatório extravasando. Boa parte é invisível — o vazamento não aflora na rua, infiltra no solo e ninguém liga para reclamar. Um furo pequeno, de poucos milímetros, despeja milhares de litros por dia durante anos.
Perda aparente é água que chegou ao destino mas não foi contabilizada: ligação clandestina, hidrômetro velho que passou a medir menos do que passa, fraude na medição, erro de cadastro. Fisicamente ela não se perdeu — perdeu-se a receita, que é o que paga a manutenção da rede.
A rede de distribuição da região metropolitana tem dezenas de milhares de quilômetros de tubulação enterrada, muita dela com meio século de idade, embaixo de avenidas movimentadas. Trocar um quilômetro de rede custa caro, interdita rua e rende reclamação. Multiplique por dezenas de milhares.
Tem também um problema de física. Quanto maior a pressão na tubulação, mais água escapa por qualquer furo — e São Paulo é cheia de morro, o que obriga a manter pressão alta para a água chegar nas partes altas. Foi justamente por isso que a redução de pressão noturna funcionou tão bem durante a crise de 2014: sem mexer em nenhum cano, o simples ato de baixar a pressão à noite economizou um volume enorme.
E existe o limite econômico. Zerar perdas é impossível; reduzir os primeiros pontos percentuais é relativamente barato, e cada ponto seguinte custa mais que o anterior. Chega um momento em que gastar mais para economizar água custa mais caro do que produzir água nova — só que essa conta muda quando a água acaba.
A rede é dividida em setores menores, com medição na entrada de cada um. Comparando o que entra com o que é faturado, dá para descobrir onde está o problema sem cavar a cidade inteira. Equipes fazem pesquisa de vazamento não visível com equipamento acústico — sim, gente ouvindo o chão à noite, quando a rua está silenciosa. Válvulas reguladoras mantêm a pressão no mínimo necessário em cada horário. Hidrômetros antigos são substituídos em lote.
O resultado aparece devagar. Reduzir alguns pontos percentuais leva anos e engole bilhões, o que torna esse indicador um dos mais cobrados nos contratos de concessão e pela agência reguladora. Sobre quem fiscaliza o quê, escrevemos este guia.
Primeiro porque está na conta: a água perdida foi captada, bombeada, tratada e clorada, e alguém paga por esse custo. Segundo porque é a fonte de água mais barata que existe. Não precisa de nova represa, não inunda ninguém, não depende de chuva. Já está pronta, só está escapando.
Para se ter uma ideia da ordem de grandeza: cada ponto percentual de perda evitado na região metropolitana representa, ano após ano, um volume equivalente ao de uma represa pequena. É a diferença entre atravessar uma seca com folga ou ver o gráfico da Cantareira despencando em julho.
Vazamento visível na rua tem canal de atendimento e vale a ligação — é rápido e resolve. Dentro de casa, o teste clássico: feche todas as torneiras, não use nada por uma hora e veja se o hidrômetro andou. Se andou, tem vazamento em algum ponto, e o mais comum é a válvula da caixa d'água ou a descarga do vaso. Um vaso vazando devagar, daqueles que ninguém escuta, joga fora mais água por mês do que um banho por dia.
Falamos das outras contas domésticas em economizar água em casa sem sofrimento. E o efeito disso tudo, somado, é o que aparece no nível dos reservatórios.
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