Índice 1, Índice 2 e Índice 3: qual número olhar na Cantareira

A diferença entre os três índices usados no Sistema Cantareira, o que cada um mede e por que o Índice 2 é o único comparável com os outros sistemas.

Você vê numa manchete que a Cantareira está com 60%. Abre outro site e lê 46%. Pergunta a um amigo que acompanha o assunto e ele fala em 30%. Ninguém está mentindo: são três contas diferentes sobre a mesma água.

Essa bagunça tem origem em 2014. Quando a Sabesp começou a bombear as reservas técnicas — o tal volume morto —, apareceu uma pergunta contábil incômoda: aquela água que só sai bombeada conta como estoque disponível ou não? Dependendo da resposta, o percentual muda muito. A solução foi publicar mais de um número.

Os volumes, antes dos índices

Três números resolvem tudo o que vem a seguir:

  • Volume útil: cerca de 982 bilhões de litros. É a água que sai por gravidade.
  • Reservas técnicas: 287,5 bilhões de litros. Ficam abaixo das tomadas d'água e só saem bombeadas.
  • Volume total: cerca de 1.269,5 bilhões de litros, que é a soma dos dois.

Índice 1: armazenado dividido pelo volume útil

É a conta antiga, a que se usava antes de 2014, e continua sendo a mais publicada. Compara o que está guardado com aquilo que o sistema entrega sem esforço. O detalhe é que, depois que as reservas técnicas passaram a ser consideradas parte do estoque operacional, esse índice pode ficar alto mesmo com o reservatório baixo de verdade. Serve para acompanhar tendência: se sobe, está enchendo; se cai, está esvaziando.

Índice 2: armazenado dividido pelo volume total

É o índice mais honesto para comparações. Ele mede o quanto há de água em relação a tudo que cabe na Cantareira, inclusive as reservas técnicas. Por isso é o único que dá para colocar lado a lado com o percentual do Alto Tietê, do Guarapiranga ou de qualquer outro sistema — e também o único que permite comparar a Cantareira de hoje com a Cantareira de 2010, antes de toda essa mudança de metodologia.

Se você só quer um número para levar para casa, é este.

Índice 3: o que sobra acima da reserva técnica

Este é o mais interessante e o menos divulgado. Ele desconta as reservas técnicas do que está armazenado e divide pelo volume útil. Em outras palavras: responde à pergunta "quanta água ainda sai sem precisar bombear?".

A propriedade útil do Índice 3 é que ele pode ficar negativo. E quando fica, significa uma coisa só: o sistema está operando dentro do volume morto. Foi o que aconteceu entre 2014 e 2015. É o alarme mais claro que existe para a Cantareira, e é por isso que ele aparece em destaque, em vermelho, na página do sistema quando cruza o zero.

Um exemplo com números redondos

Suponha 600 bilhões de litros armazenados. As contas ficam assim:

  • Índice 1: 600 / 982 = 61,1%
  • Índice 2: 600 / 1.269,5 = 47,3%
  • Índice 3: (600 - 287,5) / 982 = 31,8%

Três números, a mesma represa, o mesmo dia. Agora imagine 250 bilhões de litros armazenados: o Índice 3 daria (250 - 287,5) / 982, ou seja, -3,8%. Negativo. O sistema estaria bombeando volume morto — mesmo que o Índice 1 ainda mostrasse 25%, um número que soa razoável.

Por que só a Cantareira tem três índices

Porque só nela as reservas técnicas foram incorporadas à operação depois de uma crise. Nos outros seis sistemas o percentual publicado é direto: água armazenada sobre volume útil, ponto final. Se quiser entender melhor essa história dos reservatórios e do bombeamento, vale ler como funciona a Cantareira e o que aconteceu na crise de 2014.

E se der preguiça de fazer conta, é só abrir a página dos reservatórios: os três índices são calculados aqui todos os dias, com o valor de cada um deles.



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