
Você vê numa manchete que a Cantareira está com 60%. Abre outro site e lê 46%. Pergunta a um amigo que acompanha o assunto e ele fala em 30%. Ninguém está mentindo: são três contas diferentes sobre a mesma água.
Essa bagunça tem origem em 2014. Quando a Sabesp começou a bombear as reservas técnicas — o tal volume morto —, apareceu uma pergunta contábil incômoda: aquela água que só sai bombeada conta como estoque disponível ou não? Dependendo da resposta, o percentual muda muito. A solução foi publicar mais de um número.
Três números resolvem tudo o que vem a seguir:
É a conta antiga, a que se usava antes de 2014, e continua sendo a mais publicada. Compara o que está guardado com aquilo que o sistema entrega sem esforço. O detalhe é que, depois que as reservas técnicas passaram a ser consideradas parte do estoque operacional, esse índice pode ficar alto mesmo com o reservatório baixo de verdade. Serve para acompanhar tendência: se sobe, está enchendo; se cai, está esvaziando.
É o índice mais honesto para comparações. Ele mede o quanto há de água em relação a tudo que cabe na Cantareira, inclusive as reservas técnicas. Por isso é o único que dá para colocar lado a lado com o percentual do Alto Tietê, do Guarapiranga ou de qualquer outro sistema — e também o único que permite comparar a Cantareira de hoje com a Cantareira de 2010, antes de toda essa mudança de metodologia.
Se você só quer um número para levar para casa, é este.
Este é o mais interessante e o menos divulgado. Ele desconta as reservas técnicas do que está armazenado e divide pelo volume útil. Em outras palavras: responde à pergunta "quanta água ainda sai sem precisar bombear?".
A propriedade útil do Índice 3 é que ele pode ficar negativo. E quando fica, significa uma coisa só: o sistema está operando dentro do volume morto. Foi o que aconteceu entre 2014 e 2015. É o alarme mais claro que existe para a Cantareira, e é por isso que ele aparece em destaque, em vermelho, na página do sistema quando cruza o zero.
Suponha 600 bilhões de litros armazenados. As contas ficam assim:
Três números, a mesma represa, o mesmo dia. Agora imagine 250 bilhões de litros armazenados: o Índice 3 daria (250 - 287,5) / 982, ou seja, -3,8%. Negativo. O sistema estaria bombeando volume morto — mesmo que o Índice 1 ainda mostrasse 25%, um número que soa razoável.
Porque só nela as reservas técnicas foram incorporadas à operação depois de uma crise. Nos outros seis sistemas o percentual publicado é direto: água armazenada sobre volume útil, ponto final. Se quiser entender melhor essa história dos reservatórios e do bombeamento, vale ler como funciona a Cantareira e o que aconteceu na crise de 2014.
E se der preguiça de fazer conta, é só abrir a página dos reservatórios: os três índices são calculados aqui todos os dias, com o valor de cada um deles.
Este site é independente e não tem nenhuma relação com a Sabesp.
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