
Quem morava em São Paulo em 2014 lembra de alguma cena: a fila na loja de material de construção para comprar caixa d'água, o balde no chuveiro, a torneira que ficava sem pressão depois das dez da noite, a foto da represa rachada no jornal. Foi o ano em que a cidade descobriu que podia acabar.
O verão de 2013 para 2014 foi o mais seco já registrado na bacia da Cantareira. Janeiro e fevereiro, meses em que as represas deveriam encher, quase não tiveram chuva. Como o consumo não para, o sistema entrou em queda livre: perdia cerca de meio ponto percentual por semana, às vezes mais.
Em 15 de maio de 2014 o Sistema Cantareira marcava 8,2% do volume útil. Restavam algo em torno de 80 bilhões de litros para uma região que consumia mais de 30 mil litros por segundo. No dia seguinte, a Sabesp começou a bombear a primeira reserva técnica — a água que fica abaixo das comportas e que, até então, ninguém contava como disponível.
O nome pegou mal, mas é água igual à outra. A diferença é que ela está abaixo do nível das tomadas d'água, então não sai por gravidade: precisa ser bombeada, o que custa energia e dinheiro. Também é a parte mais suja do reservatório, com mais sedimento, o que dá trabalho extra no tratamento.
A primeira reserva técnica acrescentou 182,5 bilhões de litros ao que estava disponível. Em outubro de 2014 foi liberada a segunda, com mais 105 bilhões. Somadas, as duas equivalem a 287,5 bilhões de litros — quase 30% do volume útil do sistema. Foi isso que segurou São Paulo até as chuvas voltarem, em 2015. Escrevemos um balanço um ano depois daquele 16 de maio.
Bônus na conta. Quem reduzisse o consumo em relação à própria média ganhava desconto — chegou a 30% de abatimento. Foi a medida mais visível e teve efeito real: boa parte dos clientes conseguiu cortar consumo. Mais tarde veio também a tarifa de contingência, o contrário do bônus: quem gastava mais, pagava adicional.
Redução de pressão à noite. Entre as 21h e as 5h, a pressão na rede caía. Menos pressão significa menos água escapando pelos vazamentos e menos consumo. Para quem tinha caixa d'água em casa, passava despercebido. Para quem não tinha, virava torneira seca — e foi aí que a medida ficou conhecida como o racionamento que ninguém assumiu.
Transferência entre sistemas. Bairros que eram atendidos pela Cantareira passaram a receber água do Guarapiranga, do Alto Tietê e do Rio Grande. Isso só foi possível porque a rede é interligada, e é provavelmente a decisão técnica mais importante daquele período.
Menos água para as cidades vizinhas. A retirada da Cantareira para a bacia do Piracicaba foi reduzida, o que gerou uma queda de braço com Campinas e região que dura até hoje.
O verão de 2015 choveu melhor, e o sistema começou a subir. A recuperação foi lenta — represa grande demora a encher — e só no fim de 2016 a Cantareira voltou a operar com folga. Em 2017 uma nova outorga redefiniu as regras de retirada, criando faixas de operação: conforme o nível cai, a quantidade que pode ser retirada diminui automaticamente. Foi a tentativa de nunca mais decidir isso no susto.
Obras que estavam engavetadas saíram do papel. O sistema São Lourenço ficou pronto em 2018 e tirou o oeste da região metropolitana da dependência da Cantareira. A interligação com o rio Jaguari, na bacia do Paraíba do Sul, passou a permitir trazer água de fora em ano seco. Novas ligações entre sistemas deram flexibilidade à operação.
Mudou também a forma de contar. Desde então o sistema passou a ser medido de mais de uma maneira, e é por isso que hoje existem três índices para a mesma represa — assunto que explicamos aqui.
A conta das perdas na distribuição continua alta. A ocupação irregular nas margens das represas do sul não parou. E o consumo por pessoa, que caiu bastante durante a crise, voltou a subir assim que as represas encheram — é o padrão em toda cidade que passa por seca.
A lição mais útil de 2014 talvez seja essa: o problema nunca aparece no dia em que a represa chega no fundo. Ele aparece um ano e meio antes, num verão que choveu pouco e que quase ninguém notou. Por isso vale a pena dar uma olhada de vez em quando no nível dos sistemas, principalmente em março, quando dá para saber se o verão cumpriu o serviço.
Este site é independente e não tem nenhuma relação com a Sabesp.
Notícias · Sobre o projeto · Perguntas frequentes · Contato · Política de Privacidade
Dúvida, correção ou sugestão? Fale com a gente.