
Choveu a tarde inteira. A rua virou rio, o metrô atrasou, a manchete falou em 60 milímetros em duas horas. No dia seguinte você abre o boletim das represas e o nível está igual — ou, pior, um pouquinho menor. A sensação é de que alguém está com o número errado.
Ninguém está. O que acontece é que a chuva da cidade e a chuva que enche represa são, na prática, dois fenômenos diferentes.
Uma bacia hidrográfica é toda a área de terra cuja chuva escorre para o mesmo rio. Se você derramar um copo d'água na sua rua, ela vai parar num córrego, depois num rio maior, e assim por diante. O conjunto de todos os pontos que drenam para o mesmo lugar é a bacia daquele rio.
As represas que abastecem São Paulo ficam em bacias que, na maior parte dos casos, não incluem a cidade. A Cantareira está nas bacias dos rios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Juqueri, a 60, 80, 100 km da capital. A chuva que cai na Avenida Paulista escorre para o Tietê e vai embora rio abaixo — na direção oposta às represas.
Ou seja: para o abastecimento, o que interessa é o que cai em Joanópolis, Piracaia, Nazaré Paulista, Mairiporã. Não no Ibirapuera.
Mesmo quando chove no lugar certo, boa parte da água não chega ao reservatório. Ela se divide em três destinos:
Escoamento superficial. A parte que corre pela superfície até o rio e chega rápido à represa. É a que faz o nível subir de um dia para o outro.
Infiltração. A água que entra no solo. Some do gráfico no curto prazo, mas é a mais valiosa: ela recarrega o lençol freático e é o que mantém os rios correndo em julho e agosto, quando não chove. Uma bacia com solo seco engole os primeiros temporais inteiros, sem devolver quase nada.
Evaporação e transpiração. O que volta para a atmosfera, direto ou através das plantas. Num verão quente, é uma fatia enorme.
Por isso a primeira chuva forte depois de uma seca longa costuma decepcionar: ela vai quase toda para o solo. Só a partir da terceira ou quarta boa chuva o nível começa a responder.
Parece contraintuitivo, mas 40 mm distribuídos ao longo de dois dias enchem mais represa do que 40 mm despejados em quarenta minutos. Na pancada, a água bate no chão e escorre antes de infiltrar; boa parte se perde em enxurrada, carregando terra para dentro do reservatório — o que ainda por cima assoreia a represa. Na chuva mansa, o solo absorve, guarda e devolve devagar.
É por isso que dois meses com a mesma quantidade de chuva podem ter efeitos completamente diferentes no nível.
Para cada sistema existe uma página de chuva com dois números que vale a pena entender:
Chuva do dia e acumulada no mês, em milímetros. Um milímetro equivale a um litro por metro quadrado. Como a bacia tem centenas de quilômetros quadrados, cada milímetro representa uma quantidade absurda de água — o que explica por que 10 mm bem distribuídos mudam o gráfico.
Média histórica do mês. É o que costuma chover naquele mês, com base na série de anos anteriores. Serve de régua: 80 mm em janeiro é pouco; 80 mm em julho é festa. Comparar o real com a média é a melhor forma de saber se o ano está indo bem ou mal.
Dá para ver isso sistema por sistema — por exemplo a chuva na Cantareira ou a chuva no Guarapiranga, que ficam em regiões diferentes e podem ter meses opostos.
Da próxima vez que cair um temporal na cidade, a pergunta certa não é "quanto choveu aqui?", e sim "choveu na bacia?". A resposta está no gráfico de chuva de cada sistema, e o efeito dela aparece uns dias depois no nível da represa. Se quiser o quadro completo do porquê disso tudo, leia também por que falta água se chove tanto, ou acompanhe todos os sistemas de uma vez.
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