
Chove em São Paulo por volta de 1.400 milímetros por ano. Em Londres, que a gente imagina debaixo de garoa o tempo todo, chove menos da metade disso. Mesmo assim foi São Paulo, e não Londres, que passou perto de um racionamento generalizado. Como é que isso é possível?
A pergunta parece capciosa, mas tem resposta objetiva. São três fatores que se somam: onde a chuva cai, quando ela cai e quanta gente divide o que sobrou.
Esta é a parte que mais confunde. O temporal que alaga a Marginal não enche represa nenhuma. A água que cai no asfalto escorre para a galeria, cai no córrego canalizado, vai parar no Tietê e segue rio abaixo, poluída, na direção contrária à da cidade. Ela não volta para o sistema de abastecimento.
A chuva que importa é a que cai lá longe, nas bacias onde estão as represas: na região de Bragança, Piracaia, Nazaré Paulista, Joanópolis, no caso da Cantareira. É por isso que este site mede a chuva sistema por sistema, e não na cidade — dá para acompanhar, por exemplo, a chuva registrada na Cantareira mês a mês, comparada com a média histórica. Falamos disso em detalhe neste outro texto.
O clima daqui é bem definido: chove muito de dezembro a março e chove pouco de junho a setembro. O total do ano pode até ser bom, mas o calendário é impiedoso. Se o verão falha, não adianta chover em outubro — o estrago já foi feito, porque a cidade consumiu seis meses de reserva esperando uma recarga que não veio.
Foi exatamente isso que aconteceu no verão de 2013 para 2014. Janeiro e fevereiro, que deveriam ser os meses de encher as represas, foram os mais secos em décadas. A Cantareira entrou no inverno já baixa, e a partir daí foi ladeira abaixo. Se você não acompanhou aquele período, vale ler o que houve na crise de 2014.
Existe ainda um agravante: chuva concentrada em pancadas fortes aproveita menos. A água bate no solo seco, não infiltra e escorre rápido. Chuva fina de dois dias enche mais represa do que uma tempestade de duas horas com o mesmo total de milímetros.
Aqui está o fator decisivo. A região metropolitana passou de pouco mais de 2 milhões de habitantes em 1950 para mais de 20 milhões hoje, e foi crescer justamente onde os rios são pequenos. São Paulo está no alto de um planalto, perto das nascentes: os rios daqui ainda são fracos quando passam pela cidade. Quem mora na foz tem água de sobra; quem mora na cabeceira, não.
Em números redondos: a disponibilidade de água por pessoa na bacia do Alto Tietê é comparável à de regiões áridas, e não à de uma cidade que recebe 1.400 mm de chuva por ano. Não é falta de chuva, é excesso de gente por litro disponível.
Some a isso a água tratada que nunca chega a ser faturada — vazamentos, ligações irregulares, medição imprecisa. Perto de um terço do que sai das estações de tratamento se perde pelo caminho. Cada ponto percentual recuperado aí equivale a uma pequena represa que não precisa ser construída.
Vai chover pouco de novo, isso é praticamente certo: seca faz parte do clima daqui. A diferença é o que a região faz nos anos bons. Depois de 2014 entraram em operação obras importantes — o sistema São Lourenço, a interligação que traz água do rio Jaguari para a Cantareira, novas interligações entre sistemas. O estoque hoje é maior e mais flexível do que era.
Isso não significa segurança permanente. Significa mais fôlego. Por isso a recomendação chata continua valendo: olhe o nível de vez em quando, principalmente entre abril e setembro. Você pode ver todos os sistemas na mesma página e, se quiser, comparar com o mesmo mês do ano passado.
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