
Você abre a torneira, enche um copo e bebe. A cena leva cinco segundos. A água que estava naquele copo levou dias, às vezes semanas, para chegar até ali — e provavelmente começou o caminho numa represa que fica mais longe da sua casa do que o litoral.
A região metropolitana de São Paulo tem mais de 20 milhões de habitantes e quase nenhum rio grande por perto. O Tietê, que corta a cidade, está poluído demais para virar água de beber. O resultado é que São Paulo importa quase toda a água que consome, de sete sistemas produtores espalhados por uma área enorme. Cada um deles atende uma parte da região, e é por isso que a falta de água nunca é igual para todo mundo ao mesmo tempo.
O gigante. Sozinho, responde por mais da metade da capacidade de armazenamento de toda a região metropolitana. A água vem de seis represas na divisa com Minas Gerais e com a região de Bragança Paulista, desce por túneis até a estação de tratamento do Guaraú, na zona norte, e de lá abastece boa parte da capital — zona norte, centro e pedaços da leste e da oeste — além de cidades como Franco da Rocha, Caieiras, Osasco e Carapicuíba. Quando alguém diz que São Paulo está sem água, quase sempre está falando da Cantareira.
O segundo em capacidade. Fica no extremo leste, na região de Mogi das Cruzes e Suzano, e trata água na ETA de Taiaçupeba. Atende a zona leste da capital e uma fileira de cidades do alto Tietê: Itaquaquecetuba, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mogi. É um sistema que sofre em ano seco, porque suas represas são rasas se comparadas às da Cantareira.
A represa que muita gente conhece de vista, porque dá para chegar nela de carro num domingo. Abastece as zonas sul e sudoeste da capital e é o sistema com o problema mais complicado de todos: tem gente morando na beira. A ocupação irregular no entorno da represa é uma ameaça permanente à qualidade da água, e boa parte do custo do tratamento vem daí.
É um braço da represa Billings, isolado do resto por uma barragem justamente para manter a água em condição de ser tratada. Atende Diadema, Santo André e São Bernardo do Campo.
O mais antigo em operação e um dos menores. A água vem do Ribeirão do Campo, na Serra do Mar, a uns 70 km da capital, e chega por gravidade. Atende Sapopemba e parte de Ribeirão Pires, Mauá e Santo André.
Pequeno e antigo, com água represada em Pedro Beicht e tratada na estação Morro Grande. Atende Cotia, Embu, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra e Vargem Grande Paulista.
O caçula, inaugurado em 2018 para aliviar a Cantareira. A água sai da represa Cachoeira do França, em Ibiúna, e é bombeada morro acima por dezenas de quilômetros de adutora até Vargem Grande Paulista. Atende Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira e Santana de Parnaíba. Foi a primeira grande obra de abastecimento entregue depois da crise de 2014, e nasceu justamente por causa dela.
O trajeto é sempre parecido, mudam as distâncias. Primeiro a chuva cai na bacia — não na cidade, mas na região da represa — e escorre para os rios que enchem o reservatório. De lá a água é captada e levada por túneis, canais ou adutoras até uma estação de tratamento.
No tratamento, ela passa por coagulação, floculação, decantação, filtragem, desinfecção com cloro e correção de pH, além de receber flúor. Sai de lá potável e vai para reservatórios de distribuição, aqueles enormes, geralmente no ponto mais alto do bairro. Do reservatório, a água desce por gravidade pela rede até a sua rua, entra no cavalete, passa pelo hidrômetro e enche a caixa d'água.
Nesse caminho todo, uma parte se perde. Vazamento em tubulação antiga, ligação clandestina, hidrômetro que já não mede direito. É um pedaço grande da conta, e vale um texto só sobre isso.
Não existe uma fronteira nítida no mapa: as redes são interligadas e a operação transfere água de um sistema para outro conforme a necessidade. Isso é bom — foi o que segurou o abastecimento em 2014 — mas atrapalha quem quer uma resposta simples. A regra prática é olhar a região: norte e centro da capital, Cantareira; zona leste, Alto Tietê; zona sul, Guarapiranga; ABC, Rio Grande e Rio Claro; oeste da região metropolitana, São Lourenço e Alto Cotia.
Na dúvida, acompanhe os dois ou três sistemas mais próximos. Você pode ver o nível de todos os sistemas lado a lado ou descer ao detalhe do nível de cada represa, que é onde a coisa realmente acontece.
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