Da bica do Anhangabaú à Cantareira: a história da água em São Paulo

A história do abastecimento de água em São Paulo, das bicas do centro à construção do Sistema Cantareira e à transposição do Jaguari.

Debaixo do Vale do Anhangabaú corre um rio. Debaixo da avenida Paulista, não; mas debaixo da Rebouças, da Sumaré, da 23 de Maio, sim. São Paulo foi construída em cima dos próprios rios, e a história do abastecimento da cidade é basicamente a história de ter que ir buscar cada vez mais longe aquilo que um dia estava ali na esquina.

Século XIX: a água era do quintal

Até meados do século XIX, São Paulo era uma vila de poucos milhares de habitantes que bebia de bicas públicas, chafarizes e poços. Quem tinha dinheiro pagava aguadeiro — gente que carregava barril nas costas ou em carroça e entregava em casa. O Anhangabaú, o Tamanduateí e o Ribeirão Itororó davam conta do serviço.

A primeira rede organizada veio em 1877, com uma empresa privada, a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, que captava água na Serra da Cantareira, ali na divisa norte da cidade. Repare no nome: a Cantareira de hoje, o sistema gigante que abastece milhões de pessoas, não é aquela — pegou emprestado o nome da serra onde tudo começou. Em 1893 o serviço foi encampado pelo governo do estado, que criou a Repartição de Águas e Esgotos, a RAE.

Primeira metade do século XX: subir a serra

A cidade explodiu com o café e depois com a indústria, e a água da serra ao lado acabou rápido. Nas décadas de 1920 e 1930 vieram as duas soluções que ainda estão em operação: a represa Guarapiranga, criada originalmente para regularizar o rio Tietê e gerar energia, passou a servir também para abastecimento; e o sistema Rio Claro, que foi buscar água limpa na Serra do Mar e traz até hoje por gravidade, de uns 70 km de distância. O Alto Cotia é da mesma geração.

A lógica dessa fase é simples e um pouco melancólica: à medida que a cidade sujava os próprios rios, ia procurando água limpa morro acima. Nenhuma dessas obras foi feita com folga. Todas nasceram atrasadas, correndo atrás de um crescimento que ninguém tinha planejado.

Anos 1970: a obra que mudou tudo

Em 1973 nasce a Sabesp, da fusão de várias empresas estaduais e municipais. E entra em operação, por etapas ao longo daquela década, o Sistema Cantareira — a maior obra de abastecimento já feita no país.

A ideia era ousada: represar rios da bacia do Piracicaba, que corriam para longe de São Paulo, e trazer essa água para cá por túneis furados na rocha, invertendo o caminho natural. Seis represas, dezenas de quilômetros de túneis, uma estação elevatória em Santa Inês para vencer o desnível final e a estação de tratamento do Guaraú, na zona norte, uma das maiores do mundo.

A Cantareira resolveu o problema de São Paulo por 40 anos e criou outro, que só apareceu depois: as cidades da bacia do Piracicaba, que ficaram com menos água, nunca acharam justo. Esse conflito atravessa todas as renovações da outorga do sistema até hoje.

1980 a 2010: crescer para o lado

Com a Cantareira funcionando, o esforço passou a ser distribuir. Nesse período entram o sistema Alto Tietê, na ponta leste, e o Rio Grande, no braço isolado da Billings, no ABC. A rede vai sendo interligada, e a operação ganha a possibilidade de transferir água de um sistema para outro — detalhe técnico que 30 anos depois seria decisivo.

Também é a época em que a ocupação irregular chega às margens das represas do sul, principalmente Guarapiranga e Billings. Proteger manancial vira tema de política urbana, não só de engenharia.

2014: o susto

Aí veio a seca de 2014, o volume morto e a fila de gente comprando caixa d'água extra. Foi o momento em que a maior parte dos paulistanos descobriu o nome das represas que os abastecem. Também foi o que destravou obras que estavam paradas havia anos.

Duas delas mudaram o mapa: o sistema São Lourenço, entregue em 2018, que tirou o oeste da região metropolitana das costas da Cantareira; e a interligação que passou a trazer água do rio Jaguari, na bacia do Paraíba do Sul, para a represa Atibainha, na Cantareira. Pela segunda vez em 40 anos, São Paulo foi buscar água em outra bacia.

O padrão que se repete

Olhando de longe, a história é sempre a mesma: a cidade cresce, a fonte mais próxima não dá conta, procura-se uma fonte mais distante, constrói-se uma obra cara, e ela dura até a cidade crescer de novo. Da bica do centro à Serra da Cantareira foram poucos quilômetros. Da serra ao Piracicaba, dezenas. Do Piracicaba ao Paraíba do Sul, mais dezenas.

O que muda agora é que não sobra muita bacia vizinha para buscar. Daí a atenção crescente com o que já existe: reduzir perdas, reusar efluente para indústria, proteger manancial. Se quiser ver como esse quebra-cabeça funciona hoje, comece por de onde vem a água que chega à sua torneira.



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